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Comecei a traduzir Lunch, de Steven Berkoff, no início deste ano, a pedido de um amigo, ator, que pretende encenar a peça, inédita no país. Berkoff é ator — visto mais recentemente na pele de Dirch Frode em Os Homens que Não Amavam as Mulheres — diretor e dramaturgo. Nunca tinha ouvido falar dele antes do convite, e comecei a ler seu texto com certa surpresa. Seus diálogos são ricos em vocabulários, imagens contundentes e expressões bem curiosas, como “what did you expect, Gregory Peck?”. E embora tenhamos uma primeira versão, esta ainda não foi bem-resolvida, pois é necessário dar corpo à linguagem de Berkoff. Sinto uma compaixão infinita por todos os tradutores literários que critiquei nos últimos anos, quando me deparava com traduções ruins de textos famosos. Verdade que no teatro não basta traduzir bem, a voz do texto, seu espaço-tempo particular, também precisam ser transpostos, e se eliminamos a estranheza, a perfeição imagética, o mal-estar e as referências de alguns dos trechos de Berkoff (são muitos), já não temos seu texto, mas outra coisa. E pensando em teatro, lembro daquele ensaio brilhante de Tennessee Williams publicado como prefácio em uma de suas coletâneas, Rose Tattoo & Other Plays, acho, em que ele diz que as dimensões de ação e emoção da vida real seriam as mesmas do teatro “if only the shattering intrusion of time could be locked out“.
Acredito que, mais do que isso, o teatro traz o tempo para seu interior com a intenção de dominá-lo. Se ninguém na plateia comparar o texto original àquele em cena, certamente todos perceberão a presença — ou ausência — muito particular de um tempo exterior.
Em breve novo post sobre o assunto.
