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Costurando o vestido de dentro para fora

Grace Kelly de noiva. A mulher mais bonita que já pisou nesse planeta

Grace Kelly no dia do seu casamento com Rainier III, Príncipe de Mônaco. A mulher mais bonita que já pisou nesse planeta

Estou apaixonada por alguns livros, todos eles de papel. Vogue Weddings Brides Dresses Designers é um colírio para os olhos e para a alma, com fotos deslumbrantes de Grace Kelly, Kate Moss e Carolyn Bessette Kennedy — em seu vestido de seda perolada absolutamente impecável, de Narciso Rodriguez — e os textos de Vera Wang.

Identifiquei-me logo no prefácio, quando ela diz que no início pretendia se casar com um vestido simples, que tivesse mais a ver com a sua personalidade, mas acabou desenhando um modelo completamente diferente, e a comemoração, inicialmente para 40 pessoas, teve mais de 600 convidados. “Você acaba percebendo que [a festa] não é apenas para vocês dois, mas também para todos que amam vocês, para a família e para os amigos que estão ali por amor e respeito”.

Muita coisa mudou desde o início dos anos 90, quando Vera Wang começou seu negócio de vestidos de noiva. Mas nada mudou no papel que o Vestido desempenha nessa história toda. “Depois do anel, vem o vestido”. E foi assim comigo também, logo eu, que nunca havia pensado sobre a minha festa de casamento por mais de um minuto. E quando eu pensava, geralmente parava depois da primeira frase pois meu desejo era um só. “Se um dia eu me casar, vai ser em Itacimirim”.

Voltei da Europa, da nossa viagem de noivado, e comecei a busca pelo vestido e, de certa forma, pela noiva. Passei a ter preocupações totalmente novas, cuidados extremamente femininos que havia desprezado durante a vida toda. Nunca acessei tantos tutoriais na Internet nem li tanta bula de pílula. Nunca fui a tantos médicos. Esse mundo inteiramente novo não era privilégio da noiva, mas de uma mulher qualquer de 25-35 anos. Era como se o meu vestido estivesse sendo costurado de dentro para fora. E a literatura “bridal”, as incontáveis revistas e sites de casamento, abriam-me para uma outra realidade fictícia, um conto de fadas adaptável e delicioso porque efêmero. Fiquei fascinada com os longos e pesados vestidos e com as noivas magras, lindas e tão maquiadas. Mas não durou muito tempo. Nos últimos dias, folheando o famoso livro da Vogue, publicado no fim do ano passado, senti que revivia histórias em pílulas, como com a literatura mais curta ou a fotografia, de que gosto tanto. E se eu conseguia me identificar rapidamente com aquelas mulheres e com aqueles momentos, no fundo sentia mais uma vez que era diferente de todas elas, pois elas ansiavam pelo momento em que trocariam a camisola pelo Vestido de Noiva, e eu sempre quis a vida que começa depois dele. É o que faz esse momento tão delicado e sensível valer muito a pena.

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Os outros livros que me encantaram são The Savoy Cocktail Book, um achado na loja Le Lis Blanc do Shopping D&D, Paris, de Robert Doisneau e Hitchcock, de Truffaut, que eu ainda nem li, mas recomendo veementemente a quem quiser escutar.

Noivas perdidas e a Paris de Doisneau

Vestido Celebrity da coleção Off White/Mariage da Emannuelle Junqueira. Meu preferido!

Vestido Celebrity da coleção Off White/Mariage da Emannuelle Junqueira. Meu preferido!

Estou apaixonada pelos vestidos da Emannuelle Junqueira. No ano passado, uma de nossas madrinhas queridas elogiou muito a marca e foi comigo até a loja, mas na época achei os vestidos customizados muito pesados — embora lindos — para o que eu queria, enquanto os modelos da linha off white (às vezes chamada de Mariage — ou Marriage, até agora não sei se a ideia é falar em francês ou em inglês) eram simplinhos demais. Lembro que pensei que seria ótimo achar um vestido no meio caminho entre uma proposta e outra, e parece que finalmente achei.

O Salão Casa Moda Noivas começou na sexta, mas só resolvi ir no sábado. Perdi o desfile da Emannuelle, que aconteceu na sexta à noite, mas vi um pouco da cobertura no Instagram e na web, e parece que foi lindo, inclusive com vários modelos que não estavam disponíveis para prova durante o evento. Comecei provando um da Cymbeline, que tem uma comunicação de marca deliciosa, tudo a ver comigo. Mas nem todos os vestidos — importados diretamente de Paris — vêm para o Brasil e eles acabam não trazendo os mais fluidos e simples, que combinam melhor com a minha proposta, como o Grenadine (sem as flores, claro).

Vestido Cymbeline Grenadine da coleção 2012. Não veio para o Brasil...

Vestido Cymbeline Grenadine da coleção 2012. Não veio para o Brasil…

O estande da Emannuelle era logo em frente ao da Cymbeline, e já estava cheio por volta de meio dia. Fui e voltei algumas vezes, e confesso que tinha gostado de vários vestidos, mas nenhum deles havia me conquistado de verdade. Fiquei na fila e vi o modelo Celebrity numa das “brides to be” e me apaixonei. Nem sabia como ia ficar no meu corpo, mas foi só vesti-lo para me encantar. Era um modelo 36 e mesmo assim precisava de ajustes — na cintura e no busto — mas era lindo demais!

Não provei mais nenhum vestido depois desse. Dei uma volta pelos estandes, tirei algumas fotos curiosas, provei os bombons, e saí de lá bem feliz, tendo provado apenas 4 modelos (o Celebrity, um da Cymbeline e dois da M.Gio). Aliás, vi ao vivo as lingeries da marca Gisele Bündchen e achei lindas. Não estavam à venda mas dá para comprar pelo site.

Para ler a matéria sobre o desfile, clique aqui. E quem quiser ver o vídeo, é só acessar esse link do UOL.

Foi difícil resistir à tentação de publicar uma foto minha com o modelo, mas Tomás foi categórico: não quer saber do meu vestido. As amigas que estiverem curiosas, podem me escrever pelo Facebook. É só clicar no meu perfil, aqui.

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Os últimos dias foram muito, muito especiais. Tomás e eu comemoramos 1 ano e 7 meses de namoro e fomos jantar num restaurante a que eu não ia há mais de 10 anos. Dei de presente para ele o livro Paris Doisneau, de Robert Doisneau, que não me canso de folhear: acho que todos os contos parisienses estão naquele livro de algum jeito, e eu queria muito trazê-los à tona. Já eu ganhei miniaturas de alguns dos meus escritores preferidos: Poe, Joyce e Shakespeare, além de uma camiseta da Paris Review que chegou tardiamente — ele havia feito o pedido em julho do ano passado! Meu momento é definitivamente Paris, por isso queria recomendar um post publicado hoje no Blog da Companhia: As gavetas francesas estão cheias

Ontem meu pai completou 60 anos, e estou preparando livros e textos e álbuns para ele, porque ele merece tudo isso e muito mais.

Despedida em Paris; Como comprar (melhor) na Amazon; Bolaño e os escritores de contos

Café La Palette, na Rive Gauche, em Paris

Café La Palette, na Rive Gauche, em Paris

Há alguns dias, tive uma ideia para um livro curto, um “short novel”, como dizem os americanos. A ideia ainda é bastante incipiente, e surgiu enquanto eu lia Beauvoir in Love, de Irène Frain. Queria imaginar como seria a nossa despedida de solteiro (minha e de Tomás, juntos), em Paris, cidade que está me dando a maior saudade. E como narraríamos essa despedida, imaginando, descrevendo e vivendo o passo a passo. Talvez o livro nunca vá além dessa ideia, mas por enquanto gosto bastante dela.

Ah, e este era o post que estava “protegido” há alguns dias e hoje resolvi publicar para todo mundo:

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Era a nossa primeira vez em Paris na primavera. Deixamos as malas no hotel, na Madeleine, e começamos o tour. Atravessamos o Pont Neuf e tentamos percorrer os caminhos da Rive Gauche que havíamos feito, rapidamente, mais de um ano antes. Eu usava uma maquiagem discreta e um daqueles vestidos pretos sequinhos, o cabelo preso para trás, a câmera Lomo no colo. Tirei da bolsa dois cadernos pretos idênticos e pequenos, com capa de couro, sem pauta. Entreguei um deles para você. Nelson Algren havia feito a mesma coisa com Simone de Beauvoir mais de cinquenta anos antes. Foi assim que eu tive a ideia para a nossa despedida em Paris. Sentados no Café La Palette, você escreveu o meu nome na primeira página de um caderno, e eu escrevi o seu no outro. Ao longo do dia, escrevemos, ao mesmo tempo, sobre coisas muito diferentes, por exemplo, eu tentei adivinhar o que o casal do outro lado da rua discutia, já você comentou sobre a menina loira de vestido florido a algumas mesas da nossa. Depois você disse, “como você está linda”.

Toda manhã nós trocávamos de caderno, até que um dia cada um de nós ficou com o caderno com o próprio nome. Era uma dedicatória à nossa primeira despedida de amor, de solteiros. E agora, abrindo o caderno, eu leio…

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Como todo mundo que lê esse blog sabe, faz quase dois anos que eu leio — e muito — no Kindle. Geralmente leio em inglês mesmo, porque me identifico bastante com a literatura anglófona, mas também leio bastante em francês, português e espanhol. Quando comprei meu primeiro Kindle, a Amazon ainda não tinha loja na França, e mesmo assim nós leitores podíamos encontrar obras da literatura clássica francesa (meia dúzia de boas almas havia feito o upload dos livros em domínio público). Logo que foi lançada, a loja oferecia principalmente livros comerciais (e muitas vezes americanos) traduzidos para o francês, livros que eu provavelmente leria (ou lia) em inglês mesmo. Mas há alguns dias descobri que livros nacionais, publicados recentemente, já estavam sendo vendidos na Amazon.fr. Inclusive o livro de Emmanuel Carrère, D’Autres Vies que la Mienne (leia post aqui), que terminei de ler, em inglês, há pouquíssimos dias. Fui tentar comprar e não consegui, porque para isso são necessários dois passos simples (pero no mucho): mudar a configuração de país para França (o que eu fiz prontamente) e transferir a sua conta para a Amazon.fr (o que eu não fiz).

Se até agora não mudei minha conta para Amazon.com.br, certamente não mudaria para a Amazon.fr por impulso. Mas aquilo foi me deixando bem chateada com a Amazon, que é uma de minhas empresas — e plataformas — preferidas no mundo todo. Desde que a loja brasileira foi lançada, vários livros da loja americana se tornaram indisponíveis para residentes no Brasil, por causa do gerenciamento de direitos autorais feito pelas editoras. The Hobbit, livros de Julian Barnes, Agatha Christie e da trilogia de Cinquenta Tons. Isso sem falar nos audiobooks. Decidi conversar com um dos atendentes por chat e ele me sugeriu o que eu nunca havia tido coragem de fazer: mudar a minha configuração de país para Estados Unidos.

Basta mudar para Estados Unidos, e todos os livros — e ebooks — ficam disponíveis de novo. Em teoria, você também pode transferir e retransferir sua contas quantas vezes quiser (de Amazon.com para .com.br para .fr) e tudo volta ao normal. Se tomar coragem de fazer isso, aviso!

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No site da Paris Review (e em tom de brincadeira), Roberto Bolaño dá dicas a quem quer escrever contos: quem ler e quem não ler, com uma ênfase toda especial em Poe. (Leia aqui). Impossível não lembrar do que Alessandro Baricco disse na Flip de 2008: “quando escrevo ficção, não leio ficção”.

Paris apaixonada, Paris quand il fait beau!

Palácio de Versailles, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Palácio de Versalhes, em fevereiro de 2012. Dia glorioso de inverno

Paris é sempre Paris. Mas quando você está apaixonada, quand il fait beau, é mais Paris ainda. Havia prometido a mim mesma que não voltaria para a França no inverno e menos ainda no Carnaval. Estava apaixonada por um baiano e convencida de que a minha pátria era a Bahia. Só não podia imaginar que visitar a França com ele poderia ser tão bom. E que na felicidade, a gente carrega a pátria dentro de si. A minha Paris com Tomás é a melhor de todas. Assim como a minha São Paulo, a minha Itacimirim, a minha Itália.

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Chegamos em Paris no dia 23 de fevereiro de 2012. Tínhamos embarcado em Aix-en-Provence naquela manhã e antes das 10 horas já estávamos na Gare de Lyon. Fomos para o nosso hotel, Le Vignon 8, a algumas quadras da Igreja Madeleine, no 8ème arrondissement, meu bairro favorito em Paris. Já havia ficado em Saint Germain e em outros hotéis da Rive Gauche, mas eles eram caros e nada confortáveis, isso sem falar na calefação central, que não dava para mudar. Deixamos nossas malas, ajustamos a temperatura do quarto para 15 graus Celsius (isso mesmo, para não dar aquele choque térmico na volta) e fomos a pé para as Galeries Laffayette, para fazer nossas comprinhas de chegada. Vinho, champanhe, belisquetes para ter no hotel — além das deliciosas madeleines que nos eram oferecidas todos os dias, bem ao gosto de Proust! E, de quebra, uma sessão maquiagem com uma negra linda, vendedora da Clinique, que usou um sem fim de produtos para me deixar com a cara das francesas.

Almoçamos no Saint Joseph, um restaurante na região, antes de ir para o Louvre. Comemos filet mignon (o autêntico, de carne de porco), com Chablis e foie gras. Tudo uma delícia. E então o Louvre. Fizemos uma visita curta. A Vitória de Samotrácia, a Vênus de Milo, a Mona Lisa, as salas com as esculturas greco-romanas, e os salões com obras dos grandes pintores franceses. Fui perguntar onde estava o Delaroche que tanto havia me impressionado um ano antes, A Jovem Mártir, mas a funcionária me disse que estava em tour, infelizmente.

Voltamos para o hotel passando pela Place Vendôme e pela Place de L’Opèra. Queríamos ir ao Bar Hemingway, mas ainda estava fechado, e tudo o que fizemos foi tirar uma foto em frente à Coluna da Grande Armada, para lembrar de Maurice Chevalier e Amor na Tarde. À noite, nos encontramos com Iuli, amigo de longa data da família de Tomás, que nos levou ao Marais e mostrou muito da Rive Droite, passando inclusive pelo Centre Georges Pompidou, que Tomás tanto queria visitar. Jantamos no Le Petit Marcel, um restaurante delicioso, e tomamos o vinho da casa, também excelente.

Na manhã seguinte, Versalhes. Saímos um pouco atrasados (e atrapalhados) com o metrô de Paris. Visitamos o Palácio e, quando descemos, que surpresa! Estávamos em pleno inverno e fazia um dia glorioso de primavera. Eles nem cobraram entrada para os jardins, já que as esculturas estavam todas cobertas e não havia espetáculo das grandes eaux. Versalhes era quase só nossa, passeando entre as fontes e os lagos, tirando foto dos cisnes e dos mini labirintos charmosos. Tinha até uma barraca de pommes de terre, o equivalente a nossas barraquinhas de cachorro-quente, imagino — e lá compramos duas garrafas de 250mL de vinho branco. O moço fez o maior sucesso. Quem imaginaria que em pleno inverno, eles abririam os jardins e ele venderia tanto?

Dali voltamos para Paris. Compramos pães, queijo e foie gras com vinho, para comer com as madeleines antes de se arrumar para o teatro. O teatro era o Théatre Madeleine e a peça, Oh Les Beaux Jours, escrita por Beckett em inglês em 1961, quando ele já escrevia quase que exclusivamente em francês. São dois personagens, Winnie e Willie, uma cinquentona e um sessentão, provavelmente casados. Ela está enterrada até o colo em um monte de terra, mas todos os dias acorda dizendo: “Oh, mais um dia maravilhoso”, faz sua toilette e tenta dizer a Willie o que fazer com o seu dia. O primeiro ato é uma construção repetitiva para nos preparar para o segundo, em que Winnie, agora com os braços também imobilizados — tetraplégica — e Willie compartilham um momento ambíguo. Beckett disse que a peça fala dos momentos lentos que levam à morte, quando o tempo começa a passar mais devagar. E até hoje não consigo me livrar do eco de “Willieee”, que servia de compasso às falas de Winnie.

Tomamos champanhe no metrô, fomos para a Champs-Elysées e então para Saint Germain. Jantamos e tomamos um drink de mais de um litro no Le Petit Café, perto do Boulevard. Depois terminamos a noite numa discoteca perto dos Champs-Elysées de nome já esquecido.

Acordamos tarde no sábado, fomos almoçar com Iuli num restaurante italiano e passeamos pelo Marché des Enfants Rouges. De lá, atravessamos para a Rive Gauche a pé, passamos por um circo montado, pelos bouquinistes do Pont Neuf, por quase toda Paris, até chegar ao Musée d’Orsay. Só tivemos meia hora lá, foi a visita mais rápida possível aos impressionistas — privilegiando Van Gogh, naturalmente. E foi aí que nosso passeio perdeu o rumo e ficou ainda mais interessante. Tentei refazer o caminho de uma antiga lista de outro amigo, passamos pelo La Palette, pelas galerias de arte, por tudo que dá mais charme à Rive Gauche, até chegar, por acaso, a uma loja de vinhos chamada La Dernière Goute. Uma americana radicada há muito tempo na França nos vendeu alguns vinhos e depois falou que havia escrito um livro, Guia da Paris Impressionista, editado pela Record aqui no Brasil (o nome da escritora é Patty Laurie). Ela nos deu o livro de presente e de lá fomos, sem querer, para Les Deux Magots, que havia sido tão recomendado por todo mundo aqui no Brasil. Bebemos um excelente Bourgogne e saímos correndo para a Igreja Madeleine, para o concerto das Quatro Estações de Vivaldi. Fomos os últimos a entrar, acho.

Minha vó me disse que adora a igreja e certamente nos levou lá há mais de quinze anos. A Madeleine é o lugar onde mais gosto de ficar em Paris. Saindo de lá, fomos jantar num restaurante de bairro, despretensioso, Le Roi du Pot au Feu. A cozinha estava fechada, mas ele nos serviu o prato da casa — pot au feu, parecido com o nosso cozido –e o vinho da casa, melhor do que muito vinho internacional, e até francês, que já bebi. Já estava chegando a hora de se despedir. No dia seguinte, visitamos a Tour Eiffel e o Arco do Triunfo, e almoçamos no café do George V, na Champs-Elysées. Foram quatro dias gloriosos de sol, na Paris mais apaixonante. Em fevereiro, vai fazer um ano já. Que saudades. Quem sabe eu não compre meu vestido de noiva lá?

Paris é para sempre

Madeleine, Paris.

Madeleine, Paris.

Morei na França durante quase um ano mas só visitei Paris cinco vezes em toda a vida. Pouco. Mas muito. Da primeira à última, dos 14 aos 30, vivi tanta coisa diferente ali, com tanta gente! Minha vó e prima tão amadas, meus melhores amigos, o amor da minha vida. Fui para lá na primavera, no outono, no inverno, agora só falta conhecer Paris no verão.

É difícil escrever sobre Paris. Tentei lembrar como pude de todas as viagens. Da primeira, apenas fragmentos, mas desconfio que o relato completo esteja perdido em um dos meus diários antigos. Se encontrar algo mais do que uma lista de obras e artistas (mania que tinha na época), prometo transcrever os trechos aqui. Reservei um post especial para a última visita, com Tomás, em fevereiro de 2012 (que você pode ler aqui). Ainda transbordo de felicidade pensando que ele conheceu a França comigo, seis meses depois de nosso primeiro encontro. Fizemos um pouco de tudo, e mais. Os museus, a vida noturna, uma Versailles deslumbrante em pleno inverno, ópera na Madeleine, Beckett no teatro, vinhos, champanhes, Marais, bistrôs de bairro, Tour Eiffel à meia noite. Dá até para dizer que as visitas anteriores me conduziram a esta.

***

Conheci Paris aos 14. Lembro que chegamos cedo ao hotel e nosso quarto ainda nem estava liberado. Amontoamos nossas bagagens no alto de uma estante, lá na recepção mesmo, e seguimos para o Louvre. Minha vó, prima e eu estávamos exaustas, e ficamos naquela fila interminável, de frente para a pirâmide, comendo os chocolates que havíamos comprado em Londres. Era abril mas estava chovendo, e por muito tempo lembraria de Paris assim. Naquele dia, a Monalisa não me impressionou muito, mas a Grande Esfinge do Tânis, sim. Lembro que minha vó e eu nos sentamos e ela me contou essa história. Pensei em Sófocles e Édipo e pensaria neles depois, ao ler Cocteau. Queríamos ver a Vitória de Samotrácia e a Vênus de Milo, preferidas absolutas da minha avó e, mesmo com toda aquela expectativa, toda aquela antecipação — o grande corredor para uma, a grande escadaria para a outra — fiquei encantada. Até hoje, dão frio na barriga. Como Paris.

Ficamos apenas três dias na cidade. Minhas memórias são inexatas. Caminhando ao longo da Champs Elysées, jantando num restaurante perto do hotel, comprando baguetes na padaria, falando em francês nos pontos turísticos. A Notre Dame. A Queda da Bastilha. O jardim de Versalhes. Um sorvete de bolinhas coloridas comprado na banca de revista. Rodin e seu Beijo, seu Balzac, seu Pensador. Ah, a Place Vendôme! A Tour Eiffel. Os árabes. Os croissants.

Voltei no outono, em outubro, em um dos dias mais bonitos que já vivi na cidade luz. Tomei o TGV de Montpellier e cheguei mais ou menos umas cinco horas da tarde. Meu melhor amigo chegaria de Genebra à noite, e eu tinha o fim de tarde livre. Nem passei no hotel, fui direto da estação para o Pont Neuf e percorri a Rive Gauche com uma lista que outro amigo havia feito especialmente para mim, com os restaurantes, bares, livrarias e espaços não-demarcados que eu precisava conhecer. Ele me disse, por exemplo, que eu deveria ler no Palais Royal. Passei vários dias procurando onde exatamente, até que ele me esclareceu que o seu local preferido não era um lugar.

Andei às margens do Sena, parando em cada uma das barracas dos chamados “bouquinistes” para ver os livros ou os cartões-postais da Nouvelle Vague. Passei pela Sennelier, no Quai Voltaire, e comprei alguns cadernos pretos, de papelão, que uso até hoje para os escritos de ocasião. Na volta, parei na La Palette, onde ele havia me dito que eu devia tomar um Brouilly. Era um pedacinho tão charmoso de Paris, com as lojas de arte, os carros-esporte. E a apenas alguns minutinhos da Shakespeare & Co., a grande livraria de língua inglesa da cidade. Comprei Beginners, de Raymond Carver, obra que também foi publicada sob o título What We Talk About When We Talk About Love. Foi o único livro que li do autor.

Atravessei a ponte mais uma vez, parei num café qualquer para mais uma taça de vinho e aí percorri a Rue de Rivoli, parando na Place de L’Opèra e na fantástica Place Vendôme. O hotel ficava a algumas quadras da Madeleine. Achei a igreja maravilhosa e nem lembrava de tê-la visto na primeira visita. Quando Pedro chegou, fomos jantar e então andamos às margens do Sena, à meia noite. A cada ponte, jovens e belos universitários bebiam diretamente da garrafa, ao lado dos “flics”, gíria francesa para policiais. E eu nem sabia que Paris tinha tantas pontes lindas!

Pedro me mostrou quase toda Paris, a pé. Não fomos a nenhum museu, a nenhuma atração turística, mas comemos e bebemos maravilhosamente bem (recomendo um restaurante em frente à Madeleine, Maison de la Truffe), e andamos, muito. Foram três dias de sol, uma benção para Paris no outono. No meio da tarde, parávamos em um café qualquer para tomar o famoso pastis Ricard. E foi caminhando no Champs Elysées, em direção ao Arco do Triunfo, que conheci a Ladurée, única marca de macarrons de que realmente gosto (e que tem loja lá no JK).

Voltei duas semanas depois, com Amélia. Logo no primeiro dia, fomos ao Café Hugo na Place des Voges,  depois no bar do hotel Ritz — aquele que fica em frente ao Hemingway, que está sempre cheio. Tomamos o drink mais caro de toda a viagem, um coquetel de champanhe de 30 euros. E vivemos uma das experiências mais divertidas e inusitadas: fizemos um verdadeiro book fotográfico no Ritz! Subindo e descendo as escadas, sentadas na poltrona, admirando os quadros. Nem sei como não nos expulsaram dali!

O programa da sexta-feira era o Castelo de Versalhes. O melhor momento foi quando a chuva parou e eles começaram a vender ingressos para os jardins. Eles e suas “grandes eaux” são das coisas de que mais gosto em Paris. Nós passeamos para caramba e temos fotos demais para provar. Havia comprado nossos ingressos para uma peça de Chekov, Tio Vanya. Tinha lido a peça antes de embarcar para a França e estava louca para vê-la em francês. Fomos ao teatro Louis-Jouvet e ficamos muito bem impressionadas, mas o texto era difícil, por isso Amelinha nem aproveitou tanto.

Para terminar a noite, o Polidor. Esse restaurante tem uma história curiosa. Aliás, duas. Uma vem de Hollywood. O lugar ficou famoso depois do filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris. Não sei se ele faz uma menção nominal ao lugar em que o protagonista conversa com Hemingway, mas sei que o restaurante desaparece no fim. Na verdade, ele continua lá, na rua Monsieur Le Prince, 75006, desde 1845. Vale a visita. A comida é espetacular, e como Hugo me disse na época, “ultra-parisiense, sem a fama, ou os preços” de outros restaurantes da cidade. A comida era mesmo fantástica, e a atmosfera, Paris de cima a baixo. A garçonete que nos atendeu tinha uns 70 anos, cabelos curtinhos e loiros, antipática. E o banheiro era turco: um buraco no chão. Achando que havia me enganado, perguntei algumas vezes aos funcionários onde eram os toilettes depois, sem dar jeito, voltamos para o hotel — e que gostoso caminhar e se perder por Paris à meia noite!

Mas vale a pena visitar o Polidor, sempre. Voltei lá em dezembro, com Faffy. A nossa viagem foi diferente, por causa do frio e do meu momento — estávamos em quatro. Já morava há quatro meses em Montpellier, mas não havia me adaptado nem ao frio nem a outros aspectos de minha vida francesa. Mas nós fomos ao Louvre, a bons restaurantes e à Notre Dame. Paris sempre deixa saudades. Até na tristeza.

***

Amelinha me pediu para incluir um dos momentos mais divertidos de nossa viagem, na Place de L’Opèra. Tínhamos comprado um daqueles guarda-chuvas bem sem vergonha, que dificilmente duram mais do que um dia. De repente começou a chover pra caramba, todo mundo buscou abrigo embaixo da Opéra de Paris, e nossos guarda-chuvas se desmantelaram no ar. Fizemos de tudo para registrar este momento com uma foto, mas não houve jeito. A chuva, o evento, todo mundo encharcado. Sempre que lembro desse momento, dou risada sozinha, como imagino que Amelinha também faça.

O estrangeiro na arte

Na obra Um bar em Folies-Bergère de Manet, as lâmpadas são reproduzidas como dois discos totalmente brancos, para que possamos nos concentrar no reflexo do espelho.

Na Waterstones, em Londres, encontramos um livro inesperado. The Foreigner: Two Essays on Exile, de Richard Sennett. Foi meu primeiro contato com o escritor e sociólogo inglês, famoso por seus estudos sobre a cidade e os efeitos da vida urbana nos indivíduos do mundo moderno.

Só pude começar a ler os dois ensaios no fim da viagem, no caminho de Positano a Roma — onde tomaríamos o avião para Lisboa. O primeiro é excelente e muito instrutivo, sobre os guetos (ghettos) judeus na Veneza Renascentista. Mas foi o segundo que realmente me chamou a atenção.

Sennett parte de Manet e sua técnica artística para falar da trajetória de Herzen, russo exilado em Paris e Londres, e então do estrangeiro universal. “Em muitas das últimas pinturas de Manet, a ideia de deslocamento óptico é reforçada por um gesto arbitrário que distancia ainda mais a cena da realidade. Em Um Bar em Folies-Bergère, isso se dá no modo como Manet pinta duas lâmpadas refletidas no espelho; são discos totalmente brancos sem sombra ou efeito refratário. Para os contemporâneos de Manet, essas luzes eram sinal de fraqueza”, analisa Sennett.

Mas a função das luzes é outra. “Da mesma forma como o vestido da bargirl não pode ser refletido imediatamente à sua direita, o senhor que lhe faz uma pergunta com os olhos não pode existir opticamente, pois bloquearia nossa visão de Suzon, que por sua vez olha diretamente para a frente”. A pintura se configura de tal forma que o observador, qualquer que ele seja, encontra-se em pé de frente para Suzon. Mas, afirma Sennett, claro que nem você nem eu parecemos aquela pessoa refletida no espelho. Daí o drama criado por Manet na obra: “Eu olho no espelho e vejo alguém que não sou eu”.

A Paris da juventude de Manet, em meados do séc. XIX, era uma Paris de estrangeiros. Nos anos 30, as universidades da França estavam abertas a eles. “Era, como disse, uma situação curiosa, essa nação xenofóbica seduzida por estrangeiros perseguidos, mas tratava-se também de um importante momento histórico”. Em Paris, percebeu-se primeiro as mudanças que produziriam a imagem moderna do estrangeiro. Imagem esta que surgiu como efeito do nacionalismo moderno. Daí, Sennett parte para contar a trajetória do pensador e escritor Alexander Herzen, conhecido com o “pai do socialismo russo”, utilizando as referências mais diversas: Édipo Rei, Rousseau, Duchamp. O ensaio vale muito a leitura e o livro pode ser encontrado nas lojas Amazon.fr e Amazon.uk.

Terminei-o no avião de volta para o Brasil e, chegando em casa, recebi a edição de 27 de agosto da revista New Yorker. Que surpresa! Uma nova biografia de Stefan Zweig acaba de ser publicada — Three Lives, de Oliver Maruschek –, e em sua crítica, Leo Carey revisita toda a vida do escritor. Comecei a ler Zweig há pouco menos de 10 anos e seu livro Chess Story ou The Royal Game está entre os melhores que já li. É brilhante. Com a ascenção do governo nazista em 1933, Zweig, judeu, foi forçado a viver em exílio. Morou em Londres, NY, e e se suicidou em 1942, em Petrópolis, no Brasil. Sua vida e sua obra representam a máxima do estrangeiro cujas válvulas de escape nunca são suficientes.

P.S: traduzi livremente os trechos originais do livro de Sennett.

Coração suspenso por um fio de açúcar ou um ano de amor; Uma Estrangeira na França

A eterna Tacimirim ou Itacimirim

Ontem terminei de ler We’ll Always Have Paris, do excelente Brabdury. O conto Miss Appletree é especialmente delicioso, e poderia escrever um post inteiro sobre ele. Também avancei muito na leitura de Sarum, especialmente dos capítulos sobre Stonehenge. E já recebi lá em casa Mayaya, primeiro livro literário que traduzirei para o inglês.

Mas vou deixar esses assuntos de lado, para publicar aqui mais um capítulo — incompleto — do livro Uma Estrangeira na França. Infelizmente, o livro inteiro só ficará disponível em setembro, depois que eu voltar de viagem. Mas aviso por aqui assim que tiver novidades.

Coração suspenso por um fio de açúcar

Acordamos com livros. Ele me trouxe, na cama, um livro de Stephen Hawkings e uma bíblia do mundo de mídias sociais, e começamos a falar discretamente sobre física quântica. Toda vez que sua mão tocava na minha pele provocava uma reação físico-química, como se os meus ouvidos tivessem se enchido de água, e os pelos nos braços e nas pernas se eriçavam rapidamente. Gostava da voz, do cheiro, do toque em seus cabelos lisos e finos como os meus, do jeito como se mexia e até do espaço que ocupava no universo. Queria, em cada beijo, sugar tudo que havia nele, que era dele, para mim, fazê-lo meu de uma vez. Então era isso. Paixão que já nascia com amor, quando alguém te chama assim já na primeira noite, naquele primeiro dia 28 de julho.

Conhecemo-nos virtualmente, embora ele diga que se lembra de mim de quando éramos crianças, nos verões de Tacimirim. Um ano antes de nosso primeiro encontro, lá na Provença, sua mãe me mostrou uma foto, e eu pensei: vou me casar com ele. Nem podia dizer isso a alguém, então estava morando na França não fazia dois meses e já pensava em voltar? Logo eu que havia decidido morar lá para sempre, andando de trem e tramway para cima e para baixo, no meio daqueles leitores apaixonados.

Pensava nele como no futuro marido de uma vida que já não era minha. Conectamo-nos pelas mídias sociais – sua mãe mandou fotos de nosso fim-de-semana, e foi assim que ele soube de mim – e uma vez de volta ao Brasil, enviei-lhe uma mensagem e combinamos de nos encontrar.

Vesti-me toda de preto e fui até o bar. Nem pensava mais em casamento, havia decidido, deliberada e intransigentemente, que nunca mais me casaria nem teria filhos. E, de qualquer forma, todo mundo me dizia que ele tinha uma namorada bem bacana, e eu ainda nem havia terminado meu relacionamento francês. Queria um amigo, alguém com quem pudesse dividir minha Tacimirim perdida, meus livros, alguém que trouxesse as lembranças de Tia Tania e Tio Jean, que haviam sido tão importantes para a minha volta ao Brasil. Um mês de São Paulo, alguns dias depois de 30, disse a uma prima: Vamos marcar um happy hour com Tomás? Ela concordou, mas não foi. Foi assim. Fiquei do lado de fora do Astor esperando, no frio, depois ele chegou e nos sentamos na primeira mesa à direita, encostada à pilastra. Nosso jeito de sentar era parecido, com os ombros encurvados, como alguém que se abre para dentro, não para fora. Ele estava solteiro, ficamos lá das 8 da noite às 3 da manhã, e a dado momento ele me disse:

“Se um dia eu me casar com você…”.

Vivemos dias de vertigem, meu coração suspenso por um fio de açúcar. Falávamo-nos por telefone, por e-mail, por mensagem, por tudo. Havia um Tomás para cada canal de mídias sociais, para as mensagens de texto, para o e-mail, para as conversas por telefone, para as noites lado a lado na cama. E eu gostava de todos eles. Começamos a nos escrever poemas de amor, ele em inglês, eu em francês, acordados a noite toda, lendo Shakespeare ou Poe, ou então falando, do primeiro beijo, do primeiro amor, do primeiro namoro. Do misticismo de nossas famílias, de suas dinastias inventadas e heróis tão verdadeiros. Pela primeira vez abri para alguém aquele mundo à parte que havia construído só para mim, que começava na sala de estar de minha antiga casa em Salvador, naquele canto do sofá sob a luz da lâmpada aonde meu pai lia, passando pela grande sala de televisão onde eu sonhava, pela Sainte Victoire do jardim de sua mãe (minha tia adotiva), por Tacimirim, pelos mundos invisíveis que só os cegos de HG Wells enxergam – vê-se noite quando é dia e, do outro lado mundo, o navio que teria naufragado – até chegar naquele dia 28.

Era amor à primeira vista, como o de minha avó e meu avô, que se tinham conhecido em 1944, no Clube Bahiano de Tênis, ela com dezesseis anos. Toda a vida me dissera, “Casei-me com seu avô porque não poderia ter feito outra coisa”. E era a isso que aspirava acima de tudo, encontrar um amor cujo senso urgência atravessasse qualquer (im)possibilidade. Busquei estrangeiros, achando que com eles poderia compartilhar minha estrangeirice. Mas foi na França que entendi que era outra coisa. A certeza veio quando Tomás abriu um de seus cadernos antigos de escola e leu: “Sinto-me como um estrangeiro”. Eu também me sentia. Mas não mais.

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