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Dois tempos, uma só poesia: de Omar Khayyam a Elisa Lucinda

Uma das capas deluxe do clássico de Omar Khayyam

Meu primeiro livro de poesia realmente querido foi uma edição especial francesa, minima, com capa de camurça e folhas de laterais douradas de Rubaiyat, de Omar Khayyam. Havia pertencido ao meu bisavô e era um presente da minha vó, bem no dia do casamento da minha prima. Passei um ano procurando uma versão mais completa e achei, em francês também, e ia devorando os quartetos um por dia, e quando acabava, começava tudo de novo. O livro era compacto, uma pílula de felicidade, e esse tempo todo achei que a poesia tivesse de ser assim: inscrita num espaço delimitado, sem se arriscar além-tempo ou além-vida.

Fomos a um recital de poesia falada no último domingo, a apresentação final de um curso de 4 dias de Elisa Lucinda. Lembrei-me dela depois, e de Parem de Falar Mal da Rotina — que agora virou livro — e das emoções avassaladoras daquele início de 2010. Uma amiga e eu assistimos a tudo de uma das primeiras fileiras do teatro, aqui em São Paulo, e eu chorei e ri, vezes alternadas. Ali a poesia era outra, infinita e sonora, de verdade. Mas precisei encerrá-la numa caixa, porque atravessava uma das fases mais infelizes da minha vida e não podia me abrir inteiramente para ela. No domingo Anna escolheu um poema maravilhoso, Ex Voto, de Adélia Prado (transcrito abaixo). Ouvindo aquela poesia, lembrei-me de uma conversa que tive com a minha vó aos 16 anos, quando eu disse que estava feliz e não sentia mais vontade de escrever. Ela respondeu que quem escrevia, escrevia por necessidade interior — e se tivesse de escolher entre me ver feliz ou escritora, preferia que fosse feliz. Passei dias com medo disso: de ser feliz e não ser escritora, e de ser escritora e não ser feliz, e acabei decidindo que se eu quisesse mesmo escrever, se eu deixasse que a leitura e a literatura fossem me escrevendo de dentro para fora, talvez algum dia eu pudesse escolher. Uma terceira alternativa. Como não ser estrangeira nem brasileira. A felicidade era mais difícil de escolher assim. Mas agora, com o livro de Lucinda na mesa de cabeceira, sou feliz e posso dizer: Preciso escrever.

Ex Voto

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro da minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
“você é muito sensível, por isso tem falta de ar”.
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem forças para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum queria àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.