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Ontem recebi a minha primeira New Yorker na casa nova. A revista está deliciosa. Tem conto sobre pornográfos literários, texto sobre o futuro da procriação e uma crítica de Albert Camus que começa assim:
O romancista e filósofo francês Albert Camus era um homem bonito demais por quem as mulheres se apaixonavam perdidamente — o Don Draper do existencialismo.
Já disse aqui que só fui ler L’Étranger em julho passado, quando Tomás me emprestou o livro. Aí descobri que em vez de chato era deliciosamente absurdo. Nem O inferno são os outros soou tão forte quanto o Cela ne veut rien dire, e por algum motivo o Camus literário era mais atraente que Sartre — qualquer Sartre.
Na crítica, além de compará-lo a Bogart (fisicamente), Adam Gopnik divaga sobre a sua condição de estrangeiro: “Na América, Camus é, antes de mais nada, francês; na França ele permanece, mais do que tudo, algeriano”.
Pois é aí que discordo. O nacionalismo francês tem um limite muito bem-definido, a arte. Na Universidade de Montpellier ouvi falar várias vezes de Chopin ou Van-Gogh como franceses. Beckett, Derrida — outro franco-algeriano, Ionesco, estavam todos do lado direito da biblioteca universitária, isto é, na secção que abrigava a literatura e o pensamento nacionais (Beckett conseguia se estender por toda a biblioteca e algumas de suas obras ficavam escondidas numa sala especial, com uma funcionária dedicada que levava uns 15 minutos para achar o livro e trazê-lo para você). E numa de minhas primeiras aulas, a professora de Expression Écrite veio me perguntar se já tinha publicado (tinha, mas na escola, e aí não conta). E então me disse, enfaticamente: “Você poderia escrever em francês”.
Ora, se eu poderia…
