Positano para sempre

Positano de nossa varanda

Nessa última viagem pela Europa finalmente conheci Positano, uma das mais charmosas cidades da Costa Amalfitana. Hoje a província está cheia de turistas e é relativamente bem organizada (ou pelo menos tem mais estrutura do que Roma em alta temporada) mas há mais ou menos 100 anos a história era outra.

No início do séc. XX, Somerset Maugham, um de meus escritores favoritos, que morou nas rivieras francesa e italiana, escreveu um conto delicioso sobre Positano intitulado The Wash-Tub. O enredo é o seguinte: o alter-ego de Maugham chega a Positano de barco e vai se hospedar numa das únicas pousadas da cidade. Lá se surpreende ao descobrir que não é o único hóspede. Um senhor americano já mora na pousada há 3 meses. O aspecto livresco — o pobre senhor está ali para não atrapalhar os planos da esposa que ao receber uma fortuna decide exagerar um pouco sua história de arrivista social e cria um personagem bem pouco ortodoxo para o marido — me conquistou desde o início e a cidade mais ainda, Positano, fora do tempo e do espaço, onde podemos ser quem realmente somos. Nos últimos sete anos, aguardei ansiosamente a oportunidade de conhecê-la e posso dizer que esta surgiu na hora certa.

Hoje o anacronismo de Positano é mais sutil. São inúmeras pousadas, hotéis, restaurantes, lojas. Os turistas, eles também, são um pouco de tudo. Mas volta e meia dá para viver um momento literário. Em nosso primeiro passeio diurno pelo centro da cidade, a caminho da praia Marina Grande, assistimos de longe a uma cerimonia de casamento na linda igreja Santa Maria Asssunta. Os noivos não eram locais nem jovens, mas tanto eles como os convidados estavam muito bem vestidos. A fotógrafa gritava em inglês, com sotaque americano, para juntar todo mundo e fazer a foto de família. E alguns curiosos, com trajes de banho, até conseguiram entrar na igreja. Tomás me perguntou: “Você não acha que é um sinal?”. Depois, outro dia, no “alimentari”, comprando presunto, queijo e pão, vi entrar um casal cinematográfico, que poderia estrelar o próximo filme de Woody Allen. A menina, loira, de cabelos compridos e cachos delicados, magra num vestido branco transparente colado no corpo, com um rasgo lateral ocasional. O namorado, loiro também, com um bronzeado sutil, chapéu panamá barato, camisa branca de botões aberta, bermuda clara. Fiquei fascinada e de longe pedi a Tomás que tirasse uma foto. Ele não me ouviu. Achei que aquele se tornaria o meu momento preferido de Positano, mas horas depois tive uma grande surpresa. A bordo de um barco alugado, no meio do mar, com vista para toda a costa amalfitana, Tomás me pediu em casamento, com um lindo anel vintage, de cristal, comprado numa feira de verão às margens do Tevere, em Roma. E isso foi melhor do que qualquer conto de Maugham.

*

Para os curiosos, o conto começa assim:

Positano stands on the side of a steep hill, a disarray of huddled white houses, their tiled roofs washed pale by the suns of a hundred years; but unlike many of these Italian towns perched out of harm’s way on a rocky eminence it does
not offer you at one delightful glance all it has to give. It has quaint streets that zigzag up the hill, and battered, painted houses in the baroque style, but very late, in which Neapolitan noblemen led for a season lives of penurious
grandeur. It is indeed almost excessively picturesque and in winter its two or three modest hotels are crowded with painters, male and female, who in their different ways acknowledge by their daily labours the emotion it has excited in them. Some take infinite pains to place on canvas every window and every tile their peering eyes can discover and doubtless achieve the satisfaction that rewards honest industry. ‘At all events it’s sincere,’ they say modestly when they show you their work. Some, rugged and dashing, in a fine frenzy attack their canvas with a pallet knife charged with a wad of paint, and they say: ‘You see, what I was trying to bring out was my personality.’ They slightly close their eyes and tentatively murmur: ‘I think it’s rather me, don’t you?’ And there are some who give you highly entertaining arrangements of spheres and cubes and utter sombrely: ‘That’s how I see it!’ These for the most part are strong silent men who waste no words

Clique aqui para ler 65 contos de Somerset Maugham, incluindo o The Wash Tub.

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