Todos os personagens da minha infância tardia

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Um pedacinho de uma das portas de vidro e eu, aos 13, 14 anos

Um pedacinho de uma das portas de vidro e eu, aos 13, 14 anos

Adolescente, li O Aniversário da Infanta e a história provocou um efeito extraordinário em mim. Voltava da escola e, ainda de uniforme, sentava num dos sofás da nossa sala de estar. Era o meu lugar preferido da casa, e o mais fantástico. Para onde se olhasse, lá estavam as grandes portas de vidro. E eu me perguntava na época para que servia a sólida porta principal, se qualquer um, viesse da rua ou do vizinho, podia passar pelo vidro (se bem que a gente morava num condomínio fechado). À noite, antes de ir para o quarto, fazia questão de verificar se as portas tinham sido devidamente trancadas, tamanho era o meu medo. Eu sabia que todos os personagens da minha infância tardia podiam entrar por ali, a qualquer momento.

Quando não estava viajando, meu pai lia naquele canto do sofá. E era como se estivesse lá na hora em que eu voltava da escola. O copo de vodca-coca, o abajur à meia-luz, o cinzeiro com a ponta de cigarro, iam se compondo em ausência, misturando-se a ele e à árvore de Natal e aos presentes de fim de ano, ao bar. Era incrível que eu gostasse do bar, numa época em que sequer podia usufruir dele. Maciço, antigo, elegante, parecia mágico: copos longos e curtos e garrafas que eu nunca tinha visto saíam de algum lugar embaixo do balcão, de um compartimento que, jovem como era, nunca tive a chance de abrir.

No dia em que li aquele conto de Oscar Wilde e pela primeira vez entrei em contato com o anão, algo se quebrou. Dei-me conta de que era, a um só tempo, o anão e a infanta e não podia me limitar a um deles. Sabia que mais cedo ou mais tarde precisaria tomar um caminho. E se eu nunca conseguisse?  Aquela duplicidade era íntima e estrangeira, e tão adulta!

Nunca me redimi totalmente da injustiça que fiz contra o anão — ou será que foi contra a infanta? — mas há alguns dias, lendo The Elephant Vanishes, de Haruki Murakami, encontrei pela segunda vez o anão de Oscar Wilde. O conto The Dancing Dwarf é uma daquelas histórias que esperamos anos e anos para ler — no meu caso, foram quase 20. E valeu a pena. Descobri que havia aceitado minha natureza de duplo — e também escolhido um caminho.

Dissecando Agatha Christie

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A Rainha do Crime, Agatha Christie

A Rainha do Crime, Agatha Christie

Outro dia me dei conta de que li oito livros de Agatha Christie só nesse ano. Se não me engano, o primeiro foi Curtain: Poirot’s Last Case: assassino incrível, Poirot perfeito, depois voltei para o princípio, The Mysterious Affair at Styles – adoro o Capitão Hastings. Five Little Pigs, que havia começado e parado de ler algumas vezes — ou será que foi The Hollow? E aí, de uma só vez, Death in the Clouds, Peril at End House, Death on the Nile e Sad Cypress.

Curtain e Styles são os dois melhores dessa lista parcial. Achei Death on the Nile fraco, quer dizer, muita elaboração para pouca história — e a vítima é insuportável; Peril instiga e obedece a uma lógica um pouco diferente, mas já vi gente descobrir quem era o assassino logo nas primeiras páginas. Five Little Pigs é bem melhor do que eu esperava, mas sem grandes surpresas. The Hollow vale por causa de uma das personagens. Sad Cypress é curioso, e Death in the Clouds tem um certo valor emocional — já que foi a primeira vez em que descobri quem era o assassino!

Depois de ler tanto Agatha, comecei a notar alguns padrões nas histórias:

Sempre tem um ou dois personagens muito, mas muito bonitos, o que me faz pensar que talvez Ms. Christie não tenha sido, ela mesma, tão bonita — quando eu era adolescente, adorava escrever histórias com personagens lindos, e para não deixar dúvida alguma sobre essa perfeição estética, descrevia-os com uma porção de adjetivos vazios, ao que meu professor objecionava, perguntando se isso mudava alguma coisa na história. Bom, no caso de Christie, o belo pode ser a vítima, o assassino, a causa ou a oportunidade. Ou mais de um combinados.

Sempre tem uma fortuna no meio. O próprio Poirot costuma dizer que a maioria dos crimes apresenta uma solução bem simples. Bom, eu diria que a causa geralmente é dinheiro, quando o assassinato é premeditado, e luxúria, quando não é. Mas, é claro, os melhores livros são mais surpreendentes. Gosto especialmente de um deles — e não vou dizer qual é, mas não está nessa lista — o assassino matou por um quadro de Vermeer (ou será que era outro pintor?).

Sempre tem alguém acima de qualquer suspeita, pode procurar. Nos primeiros livros que li de Agatha, minhas desconfianças iam de um personagem para outro, até o livro acabar. A coisa ficava ainda pior quando Hastings aparecia na história. Ele e eu quase enlouquecíamos juntos, mudando de assassino a cada nova página. Mas sempre havia alguém acima de suspeita. E este alguém não era, necessariamente, o favorito de Hastings (sim, ele tem favoritos), mas alguém para cima de quem Poirot jogava Hastings: para dar um passeio no parque, por exemplo. Depois que eu descobri isso, minha vida de leitora ficou muito mais fácil.

Sempre tem um médico, ou um dentista, ou os dois. Bonitos, jovens e quase onipresentes — estão em todo lugar, no avião, na casa do paciente, no trem — bem na hora! E pelo menos os dentistas não estão acima de suspeita — em um dos livros, que eu não vou dizer qual é, Poirot subverteu todas as regras e até mudou o par romântico do final… Que pena.

Toda história tem um final feliz. Depois do 10º livro, a autora acaba se confundindo com Poirot. Eu até diria que ela vira Poirot. Aí vem a hora em que a gente lembra que, no fundo ou até na superfície, Christie é mulher. A maioria de seus livros — só consigo pensar em dois que são exceções que confirmam a regra — acaba com um par romântico. E, veja bem, nem sempre é o par que os próprios personagens envolvidos tinham em mente — Poirot é o cupido. Parece que em matéria de crime e amor, a última palavra é sempre a dele!

E eu já vou pensando no próximo livro…

Solidão em Murakami

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O escritor Haruki Murakami

O escritor Haruki Murakami

Depois de anos e anos ouvindo falar de Haruki Murakami, finalmente resolvi ler o autor. The Elephant Vanishes é uma coletânea de contos livresca, solitária e inesperada, quer dizer, os personagens fazem exatamente o que eu faria se estivesse no lugar deles — mas eu nunca pensei que encontraria personagens assim ou ainda que um escritor japonês poderia traduzir tanto do que penso sobre isso — a intrusão desesperada da ficção na realidade.

Li em algum lugar que a literatura de Murakami tinha um quê de realismo fantástico. Eu não concordo, pelo menos não com o nome. Esses críticos da web também falam em extraordinário, em “descompasso com o mundo ao redor” ou em uma “desestabilização do cotidiano”. Eu diria que o descompasso é de dentro para dentro, e que a cisão acontece no interior do personagem. Como a mulher que passa as noites acordadas — exatas 17 noites — num estado de super-vigília, lendo e relendo Anna Karenina enquanto come chocolates e bebe conhaque, em suma, faz três coisas que a vida pacífica com o marido e o filho não permitiam (ou assim ela nos leva a pensar). A realidade, ou o dia, torna-se para ela algo automático e sem significado, até que a falta de sono acaba comprometendo sua supra-realidade notívaga…

Talvez o conto mais impressionante seja o mais simples e aborrecido: Um dos empregados da loja de departamentos responde à carta de uma cliente que queria trocar um CD porque havia se confundido de compositor clássico — aliás, todo mundo parece confundir os nomes da música clássica nesse livro, já nem sei mais se era Haydn ou Mozart ou outro — dizendo que queria dormir com ela mas, veja bem, apenas se pudesse se dividir em dois, e ela também — ele queria continuar com a namorada, e não poderia pedir à destinatária da carta que mudasse nada em sua vida, mas seus duplos, eles sim, iriam para a cama.

Minha pergunta talvez seja ainda mais simples: por que esta cisão é, ao mesmo tempo, impossível e necessária? Talvez na resposta esteja a síntese da literatura que me interessa, talvez seja a solidão em seu estado puro.

*

Tem um outro escritor japonês que me impressionou demais: David Hoon Kim, autor de Sweetheart Sorrow, o melhor conto que já li na New Yorker, e talvez o melhor conto que já li na vida.

O livro mais lindo do ano

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Ilustração do episódio bíblico de Emmaüs.

Ilustração do episódio bíblico de Emmaüs, do qual o livro toma emprestado o nome.

Terminei de ler hoje Emmaüs, de Alessandro Baricco, escritor italiano que conheci na Flip de 2008 ou 2009, agora não lembro mais. Foi o livro mais bonito e mais longo dos últimos meses. Tem 100 e poucas páginas mas levei semanas para ler até o fim. A história gira em torno de cinco adolescentes: quatro garotos celibatários, que se revezam no trabalho com a igreja e num hospital para pobres e uma menina, Andre — tão jovem quanto eles, meio madona, meio prostituta, a quem o narrador atribui uma masculinidade latente. Aliás, na língua italiana, Andrea é um primeiro nome de homem, e Andre sequer existe, o que traduz tanto a virilidade da personagem como as liberdades tomadas pela sua família rica.

Praticamente nada acontece da abertura até quase o fim — e deve ter sido por isso que o li em momentos etéreos de semi-sonolência. Ia dormir com a imagem de Andre e dos quatro adolescentes condenados na cabeça, e na noite seguinte pouca coisa havia mudado. Mas aí, de repente, o narrador nos contava como Andre havia tentado o suicídio pela primeira vez, ou nos surpreendia com uma cena de amor: Andre e dois dos quatro rapazes, na cama, com toda aquela carga e expectativa adolescente, e muita poesia, muito erotismo. Custei, também, a entender a virilidade de Andre. Era a sua independência, sua mortalidade, sua sexualidade. Em um dos momentos, o narrador diz que a sua beleza e virtude se concentrava no rosto e afirma, certamente sem acreditar muito, que ninguém prestava atenção ao seu corpo. O seu corpo nada mais era do que “um jeito de ser, de se apoiar, de ir-se”. Em outro trecho enfatiza justamente que, do lado de fora dos banheiros, “ela se apoiava contra o muro”, para esperar os homens que se sucediam “uns após os outros”.

Desde a primeira página encontrei várias semelhanças entre a obra e The Sense of an Ending, de Julian Barnes, que li em janeiro. Foram os dois livros que mais gostei de ler no ano, o que certamente influencia e potencialmente deturpa minha percepção sobre eles. Enquanto os jovens de Baricco aspiram a uma religião pura, os de Barnes aspiram a uma intelectualidade superior. A mulher, em ambos os livros, fascina a todos, com uma pequena diferença. Andre não é Veronica, a protagonista feminina de The Sense, mas Adrian, que também se reflete parcialmente no Santo, de Baricco. E nós temos a certeza de que o narrador de Emmaüs está dizendo a verdade, mesmo quando ele não sabe qual ou o que é a verdade. Já no caso de Tony, a verdade só aparece no fim e a despeito dele. Ah, se pudesse mentir!

Talvez a coisa mais impressionante seja o fim do livro de Baricco, pois as últimas cenas são as mais vívidas de toda a narrativa. Como se todo o livro fosse uma preparação a elas, àquele momento em que, como no episódio bíblico de Emmaüs, a verdade fica clara. Nós não somos mais tão jovens e finalmente compreendemos.

A perigosa arte de viver a ficção na realidade

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Dentro de Casa, novo filme de François Ozon, baseado na peça El Chico de La Última Fila de Juan Mayorga (Foto Divulgação)

Cena de Dentro de Casa, novo filme de François Ozon, baseado na peça El Chico de La Última Fila, de Juan Mayorga (Foto Divulgação)

Há dias pensava em escrever sobre as delícias — e os perigos — de viver a ficção na realidade, mas não conseguia pensar em uma obra que abordasse o assunto do jeito que queria. Tenho certeza de que este é o tema implícito de todo livro, filme, peça de teatro, música, novela, de qualquer narrativa semi ou inteiramente fictícia e de que provavelmente elas só existem para isso e são fundamentais, inclusive, para manter nossa sanidade intacta e conter a realidade dentro de nosso tempo. Por isso, talvez, tanta gente se preocupe com a saúde do autor George R. R. Martin, como um amigo nos explicou nesse fim de semana. Dela depende a continuidade da famosa série Crônicas de Gelo e Fogo. O que seria de milhões e milhões de fãs se não pudessem conhecer o fim da história?

O novo filme de François Ozon vai um pouco além dessa curiosidade. A ideia, aqui, é mesmo privilegiar a continuidade pela continuidade, e inscrevê-la no fluxo da própria vida. Ozon é um grande autor de cinema. Acho que seus filmes mais conhecidos aqui no Brasil são Swimming Pool e 8 Femmes (8 Mulheres). Mas eu tinha acabado de mudar para Montpellier quando Potiche – A Esposa Perfeita entrou em cartaz. Adorei. Fabrice Luchini, Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, juntos. Luchini é tão bom, tão bom que ainda dou risada quando lembro de As Mulheres do Sexto Andar (Les Femmes Du Sixième Étage), que fui ver sozinha no meio da semana num cinema de bairro cheirando a pó da cidade francesa.

A premissa é simples mas arrebatadora — escolhi o filme quando li a sinopse naquele folheto de porta de cinema. Luchini é Germain, um professor de francês de colegial, entediado com a mediocridade dos seus alunos. É casado com Jeanne, interpretada por Kristin Scott Thomas. Ela trabalha numa galeria de arte que está com os dias contados — e vende arte ou muito erótica ou muito moderna, ou as duas coisas. A história começa assim: ela volta do funeral do suposto dono da galeria e o encontra corrigindo o dever de casa dos alunos. Ele havia pedido que escrevessem sobre o fim de semana, e quase todos falam da televisão, do celular, da pizza — e ele lhes dá notas baixíssimas. Mas Claude Garcia começa uma narrativa sobre como finalmente entrou na casa de seu amigo Raphael Artole, descreve o perfume característico da mulher de classe média e termina assim: Continua.

Germain decide dedicar horas extras do dia a Claude e ensinar-lhe sobre a literatura. Empresta-lhe livros, dá aulas extras sobre o motivo literário, incorre em pequenos e grandes delitos para garantir que a história, bem, continue. Lê com avidez cada novo capítulo do que se passa Dentro da Casa de Raphael, ao lado da esposa, que também entra na brincadeira. Ninguém mais sabe o que é verdade e o que é ficção, o que é manipulação de Claude e o que é literatura no que tem de melhor, tudo o que é importa é a narrativa pela narrativa, e que não acabe nunca.

Não poderia concordar mais com a premissa de uma Scheherazade e um sultão de meia idade, e reconheço um pouco de mim em Claude e Germain, tão indispensáveis para qualquer história. No enredo do filme, a dosagem da ficção ganha proporções trágicas, e talvez seja sempre assim quando a parte mais importante de nossas vidas começa a ser ocupada por outro tipo de narrativa. A pergunta, então, poderia ser: quando parar?

*

A peça em que o filme é baseado, El Chico de La Última Fila, pode ser lida na Internet, neste link. A adaptação é bastante fiel e o texto original, muito bom.

Emmanuelle Seigner, a bela e banal esposa de Roman Polanski, interpreta Esther, por quem o jovem Claude é obcecado. Eu a considero uma das mulheres mais bonitas de todos os tempos.

*

E já que estamos falando em narrativas, acho que vale mencionar que a sexta temporada de Mad Men já está disponível para download na Apple Store (para usuários americanos). Bom, por enquanto, apenas os 2 primeiros — e maravilhosos — episódios. Estou adorando. Não existe narrativa mais elegante — em estilo e literatura. E acho Don Draper um dos melhores personagens dos últimos tempos.

Ainda estou terminando de ler Emmaus, de Baricco, e engatei no segundo livro da trilogia Fifty Shades. Mas quase não tenho tido tempo para ler.

Quando você for velha

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Com minha vó em seu aniversário de 80 anos

Com minha vó em seu aniversário de 80 anos

Aprendi a gostar de poesia já tarde, com um pequeno Rubaiyat que havia pertencido ao meu bisavô. Minha vó me deu de presente em 2009, no dia do casamento da minha prima. Alguns meses depois, li Yeats pela primeira vez. Um grande amigo na época se sentou ao meu lado, abriu um livro antigo e leu When You Are Old em voz alta.

O poema ressoa dentro de mim até hoje, e nunca soube ao certo se o que provocava era medo ou esperança. Via-me jovem como a mulher do poema e, igual a ela, nunca havia pensado no que seria envelhecer um dia. Meus amores eram homens “antigos”, minhas paixões tão ancestrais como efêmeras, e a mulher que mais admirava no mundo era também a mais velha. Minha vó era cheia de história e histórias, e tanta juventude! Talvez por isso eu tenha acreditado que um dia me transformaria numa versão mais simplificada de quem ela era; mas envelhecer, nunca.

Só fui me dar conta dos efeitos do tempo nos últimos dias. Foram mais de 31 anos de negligência — serão 32 em julho — sem passar um único creme, tomando sol sem protetor solar quase sempre, vivendo a vida dia após dia. Numa das análises que encontrei na web, um suposto “crítico” diz que sonhar com a expressão que seu rosto teve um dia não faz sentido, pois a maioria das pessoas sequer se olha no espelho por outro motivo que não seja “ver que tudo está no lugar”. Ora, esse crítico desconhece as pessoas do sexo feminino.

Mas a verdade é que mesmo ao longo dos anos continuamos encontrando a mesma menina, ou a mesma mulher, até que um dia algo muda. E a gente percebe que não tem volta, para o bem e para o mal.

A passagem do tempo, para a mulher, é um assunto tão poético que o lindo poema de Yeats — abaixo em versões original e em português, numa bela tradução que encontrei no blog A Poesia de Yeats — tem um precursor do séc. XVI, o poeta francês Pierre de Ronsard.

Os dois textos servem como alerta. O poeta escreve para uma mulher ainda jovem, e certamente bela. Em Ronsard, ele relembra que celebrou a sua beleza um dia e ela o desdenhou; hoje ele está debaixo da terra e ela virou uma velha. “Colha desde hoje as rosas da vida”. Em Yeats, ela também o desdenhou, mas enquanto todos os homens amaram a sua beleza, ele foi o único a amar “sua alma peregrina”. Hoje ele também está morto, e ela lamenta com amargura que “o amor fugiu”.

Talvez, em Ronsard, a ideia seja celebrar a beleza e a juventude, que são dádivas, e em Yeats dizer que a mulher amada não tem idade.

Quando fores velha
Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,

Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

When You are Old

William B. Yeats (1865-1939)

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

Quand Vous Serez Bien Vieille

Pierre de Ronsard – 1587

Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle,
Assise auprès du feu, dévidant et filant,
Direz, chantant mes vers, en vous émerveillant :
Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.

Lors, vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,
Déjà sous le labeur à demi sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,
Bénissant votre nom de louange immortelle.

Je serai sous la terre et fantôme sans os :
Par les ombres myrteux je prendrai mon repos :
Vous serez au foyer une vieille accroupie,

Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie.

O Livro de Coquetéis do Hotel Savoy

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Moscow Mule e White Russian, dois clássicos. O primeiro tem uma versão deliciosa no Brasserie des Arts, em São Paulo. E a história do segundo remete ao famoso Hotel Savoy, em Londres...

Moscow Mule e White Russian, dois clássicos. O primeiro tem uma versão deliciosa no Brasserie des Arts, em São Paulo. E a história do segundo remete ao famoso Hotel Savoy, em Londres…

Sou uma grande fã do seriado Mad Men e mal posso esperar para começar a nova e sexta temporada no próximo dia 7 de abril. Para criar um clima de antecipação — como se precisasse, é a melhor série da TV paga e ainda assim a AMC gosta de deixar a gente esperando — o canal criou uma ótima estratégia de posts no Facebook. Todo dia, publicam foto e receita de algum dos mais famosos coquetéis mundo afora. Cuba Libre, Martini, Negroni, Vodka Gimlet – uma versão da caipirinha — White Russian, o delicioso Moscow Mule, apenas para citar alguns. Don Draper e seus colegas de Madison Avenue gostam principalmente de vodca e uísque, mas se a ideia é celebrar o coquetel, não vejo por que não.

Há alguns dias encontrei por acaso o livro The Savoy Cocktail Book, considerado a bíblia dos drinques. O barman Harry Craddock iniciou sua carreira nos anos 20, mas com a Lei Seca precisou fez as malas para Londres e foi trabalhar no Bar Americano, no luxuoso Hotel Savoy. O resto é história. Um coquetel bem famoso, o White Russian ou Russian, como era conhecido na época — bebida preferida do Grande Lebowski — foi criação dele. Outros não constam de sua lista no nome atual, mas o livro dá muito o que falar — e experimentar. Minhas escolhas geralmente oscilam entre a caipirinha e o gin tônica, mas há alguns meses tive o prazer de provar o Moscow Mule no Brasserie des Arts, aqui em São Paulo. Achei maravilhoso. E já gostei muito dos Martinis docinhos e do clássico Dry — a versão do Astor é sensacional. Andava com um caderno Moleskine anotando todas as minhas experiências. O Negroni, por exemplo, é uma bebida tipicamente masculina e uma vez, em um bar, um homem veio me perguntar se eu realmente sabia o que havia pedido.

O livro vale muito a pena, mas não vai ser tarefa fácil encontrá-lo. Achei por acaso, numa das lojas Le Lis Blanc do D&D. Logo na introdução, uma história possível sobre a origem do nome coquetel. Tudo teria começado num encontro entre um general do exército americano e o rei Axotol do México. Uma bebida seria servida mas vendo que só havia um copo, a filha do rei, de nome Coctel, teria contornado a situação embaraçosa bebendo todo o líquido. Achei o máximo coquetel ser um nome de mulher.

No Mad Men Cocktail Guide, dá para encontrar as receitas — em inglês — de alguns dos mais famosos coquetéis do mundo. E no site da Vodca Absolut, as receitas são em português, como a do Moscow Mule:

Ingredientes

  1. 2 Partes de ABSOLUT VODKA
  2. 1 Parte de Suco de Limão
  3. Cerveja de gengibre
  4. 1 Pedaço de Limão

Como misturar este coquetel

Encher um copo alto resfriado com cubos de gelo. Adicionar ABSOLUT Vodka e suco de limão. Completar com cerveja de gengibre. Decorar com limão.

Comentário sobre o Universo (e além)

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Jim Holt com uma xícara de café -- que ele tanto aprecia...

Jim Holt com uma xícara de café — que ele tanto aprecia…

Foi uma resenha publicada há mais de seis meses que animou o meu dia hoje. “Why Does the World Exist“, de Jim Holt, foi lançado no meio do ano passado, mas por algum motivo só fiquei sabendo do livro hoje, em uma crítica de Dwight Garner, do New York Times (leia aqui). Depois de dois ou três parágrafos, já tinha certeza de que se tornaria um de meus livros preferidos do ano, e exatamente aquilo que eu vinha buscando. Lembrei na mesma hora de almoços filosóficos com a família, que ainda acontecem às vezes, mas eram muito frequentes há uns 10 anos. Meu pai nos colocava a par das mais recentes descobertas da ciência, das obras mais vendidas de física quântica, e leigos que éramos (e somos), nós retrucávamos em pé de igualdade. Houve uma época da minha vida, talvez dos 20 aos 25 anos, em que só a física quântica ou a sua filosofia muito particular me trazia paz. Minhas ficções emanavam todas de gordos livros de capa dura de cientistas do show biz americano e eu tinha os sonhos mais espetaculares à noite. Uma vez sonhei que conversava com Einstein. E, no dia seguinte, passei a tarde toda com um livro de Richard Feynman, calculando, em distância, o tempo que me separava de um certo homem.

Esse uso arbitrário da literatura científica pode até não ser muito nobre, mas cumpria com o que acredito ser o dever principal da ciência: provocar a imaginação.

Dwight, por exemplo, não é inteiramente elogioso a Holt, mas a verdade é que se diverte inclusive quando parece repreender o hedonismo do autor. E o fato de Holt gostar tanto de descrever suas refeições ou sucumbir sem muita resistência ao champanhe provavelmente o aproxima mais da resposta primordial.

*

O blog fez um ano no dia 15 e eu não escrevi um único post comemorativo. Tampouco vim aqui avisar que a Amazon já começou a vender o Kindle Paperwhite — o melhor eReader de todos os tempos, sem sombra de dúvida — aqui no Brasil. É caro — a versão Wifi custa R$ 479 — mas acho que vale a pena para quem não viaja muito. Para quem está curioso, é só clicar no link — os pontos de venda são Ponto Frio e Livraria da Vila.

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Um update rápido sobre os livros — estou lendo Emmas, de Alessandro Baricco, em francês. E gostando demais. O tema do livro parece ser o mesmo de The Sense of an Ending, uma das obras que eu mais gostei de ler nesse ano.

Não consegui terminar The Falls. Ainda.

Costurando o vestido de dentro para fora

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Grace Kelly de noiva. A mulher mais bonita que já pisou nesse planeta

Grace Kelly no dia do seu casamento com Rainier III, Príncipe de Mônaco. A mulher mais bonita que já pisou nesse planeta

Estou apaixonada por alguns livros, todos eles de papel. Vogue Weddings Brides Dresses Designers é um colírio para os olhos e para a alma, com fotos deslumbrantes de Grace Kelly, Kate Moss e Carolyn Bessette Kennedy — em seu vestido de seda perolada absolutamente impecável, de Narciso Rodriguez — e os textos de Vera Wang.

Identifiquei-me logo no prefácio, quando ela diz que no início pretendia se casar com um vestido simples, que tivesse mais a ver com a sua personalidade, mas acabou desenhando um modelo completamente diferente, e a comemoração, inicialmente para 40 pessoas, teve mais de 600 convidados. “Você acaba percebendo que [a festa] não é apenas para vocês dois, mas também para todos que amam vocês, para a família e para os amigos que estão ali por amor e respeito”.

Muita coisa mudou desde o início dos anos 90, quando Vera Wang começou seu negócio de vestidos de noiva. Mas nada mudou no papel que o Vestido desempenha nessa história toda. “Depois do anel, vem o vestido”. E foi assim comigo também, logo eu, que nunca havia pensado sobre a minha festa de casamento por mais de um minuto. E quando eu pensava, geralmente parava depois da primeira frase pois meu desejo era um só. “Se um dia eu me casar, vai ser em Itacimirim”.

Voltei da Europa, da nossa viagem de noivado, e comecei a busca pelo vestido e, de certa forma, pela noiva. Passei a ter preocupações totalmente novas, cuidados extremamente femininos que havia desprezado durante a vida toda. Nunca acessei tantos tutoriais na Internet nem li tanta bula de pílula. Nunca fui a tantos médicos. Esse mundo inteiramente novo não era privilégio da noiva, mas de uma mulher qualquer de 25-35 anos. Era como se o meu vestido estivesse sendo costurado de dentro para fora. E a literatura “bridal”, as incontáveis revistas e sites de casamento, abriam-me para uma outra realidade fictícia, um conto de fadas adaptável e delicioso porque efêmero. Fiquei fascinada com os longos e pesados vestidos e com as noivas magras, lindas e tão maquiadas. Mas não durou muito tempo. Nos últimos dias, folheando o famoso livro da Vogue, publicado no fim do ano passado, senti que revivia histórias em pílulas, como com a literatura mais curta ou a fotografia, de que gosto tanto. E se eu conseguia me identificar rapidamente com aquelas mulheres e com aqueles momentos, no fundo sentia mais uma vez que era diferente de todas elas, pois elas ansiavam pelo momento em que trocariam a camisola pelo Vestido de Noiva, e eu sempre quis a vida que começa depois dele. É o que faz esse momento tão delicado e sensível valer muito a pena.

*

Os outros livros que me encantaram são The Savoy Cocktail Book, um achado na loja Le Lis Blanc do Shopping D&D, Paris, de Robert Doisneau e Hitchcock, de Truffaut, que eu ainda nem li, mas recomendo veementemente a quem quiser escutar.

O filme perdido de Hitchcock

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hitch

Hitchcock na abertura de um dos episódios de Alfred Hitchcock Presents

Se descobri o cinema com Kubrick, foi por causa de Hitchcock que me apaixonei pela sétima arte.

Gosto de todos os filmes dele, dos clássicos ingleses aos hollywoodianos, dos mais “cabeça” aos mais divertidos, dos preto-e-branco aos coloridos com technicolor. Foi graças a suas brilhantes adaptações que conheci alguns escritores e obras sensacionais — como John Buchan e seu The Thirty-Nine Steps. Mas a grande diferença em relação a Kubrick é talvez o fato de eu gostar de Hitchcock a qualquer hora do dia.

Tenho revivido emoções do diretor inglês. Aproveitando o lançamento do filme Hitchcock, com Anthony Hopkins e Helen Mirren, agora em cartaz em São Paulo, a Livraria Cultura promoveu uma noite só com seus clássicos. Não fui, mas resolvi assistir, em DVD mesmo, a dois filmes que adoro. Marnie, por causa de Sean Connery e de uma Tippi Hedren impecável, por seu conteúdo sexual e controverso para a época. Rope porque se trata de um filme perfeito. Filmado em longas sequências em uma única locação e quase sem edição, faz parte do cinema teatral e envolve uma experimentação bem ousada. Fiquei sabendo de sua existência em uma edição especial da Scientific American sobre o Tempo, que acaba de ser reeditada. Em uma das reportagens, Antonio Damasio avalia que, embora o filme de Hitchcock tenha apenas 80 minutos, a duração para o espectador é de pelo menos 105 minutos, proeza que ele conseguiu com seus efeitos de câmera.

Redescobri The Paradine Case, que não tinha visto até agora. Não me entusiasmei tanto, mas Alida Valli está sensacional, e Louis Jourdan, de uma beleza quase indecente para a película em preto e branco. Com a Apple TV, começamos também a ver episódios da série de TV de Hitch, “Alfred Hitchcock Presents“. Vimos o primeiro capítulo, Revenge, com Vera Miles — mais linda do que nunca — e Into Thin Air, também chamado de The Vanishing Lady — uma alusão ao excelente filme que ele fez para as telonas, The Lady Vanishes. Então resolvemos pular para um episódio da terceira temporada, Lamb To The Slaughter, baseado no conto homônimo de Roald Dahl, um de meus textos preferidos. Perfeição pura.

Revimos Janela Indiscreta e Dial M for Murder, duas obras fantásticas com a deslumbrante Grace Kelly — em um dos extras, um dos envolvidos na filmagem diz que ali estão as tomadas mais bonitas já feitas de um rosto feminino. E eu concordo.

Por tudo isso, devo dizer que gostei do Hitchcock com Hopkins, mas para mim ninguém nunca poderá representá-lo de verdade. Nos últimos anos, a minha relação com o cinema foi marcada pela descoberta de novas obras do diretor, e às vezes fico pensando o que vai ser de mim quando tiver assistido a absolutamente tudo.

Mas será que eu vou conseguir ver tudo? Pesquisando na web, Tomás descobriu que ele tem um filme perdido. De The Mountain Eagle, filme mudo de 1927, restam apenas alguns ‘stills’ e um roteiro obtuso. E, ainda assim, daria um ótimo thriller.

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Baixei uma amostra de Alfred Hitchcock: A Life in Darkness and Light, considerado a sua biografia máxima, mas até agora não consegui passar do começo. Foi aí que lembrei de um livro recomendado por um amigo há vários anos, Hitchcock, de Truffaut, disponível apenas em papel. Vou encomendar.

As leituras têm sido lentas desde que terminei o segundo Simenon. Estou lendo The Falls, de Joyce Carol Oates, recomendado por minha tia-sogra. O livro é bonito e profundo, e talvez por isso esteja demorando tanto para terminá-lo.

 

 

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